A Dor como Portal de Evolução
Hector Othon
Há vidas que não foram escolhidas para o conforto,
mas para a consciência.
A tua alma não entrou nesta existência por engano.
Nada do que viveste foi erro, castigo ou má sorte.
Foram experiências tecidas por uma parte de ti
que enxerga além do medo, do tempo e da dor imediata.
Não és vítima de uma conspiração cósmica.
És viajante de uma jornada de evolução.
A tua alma sabia quando escolheu este corpo,
este nascimento, estes pais,
estas feridas específicas.
Sabia que certas sombras seriam inevitáveis,
porque apenas atravessando-as
seria possível recordar a luz que és.
A luz mais pura não se revela sem profundidade.
E a profundidade quase sempre se apresenta
na forma de dor.
Cada perda que te despedaçou,
cada traição que te roubou o ar,
cada frustração que te desviou do caminho,
cada queda que feriu tua autoestima —
foram portais disfarçados de tragédia.
O ego chamou de sofrimento.
A alma chamou de despertar.
A dor não veio para te destruir.
Veio para desnudar o que não és.
Para arrancar máscaras,
desfazer falsos eus,
romper identidades construídas apenas para sobreviver.
A alma que busca liberdade
raramente escolhe o caminho fácil.
Estiveste adormecido dentro de uma história
que a tua própria alma escreveu há muito tempo.
Por isso certas experiências se repetem,
certas pessoas ferem do mesmo modo,
certas emoções retornam como ecos antigos.
Nada é aleatório.
A vida não te acontece.
A vida te responde.
Cada crise contém uma inteligência invisível.
Cada ruptura carrega uma instrução codificada.
Aquilo que parece destruição
é, muitas vezes, uma reorganização profunda.
Não viemos ao mundo apenas para ser felizes.
Viemos para expandir a consciência.
E a consciência não nasce do conforto,
mas do fogo da experiência.
O verdadeiro inferno não é sofrer.
É repetir, inconscientemente,
aquilo que a dor já tentou ensinar.
Quando tudo parece ter sido tirado,
não foi punição.
Foi libertação.
A vida retirou o que impedia
o encontro contigo mesmo.
Nada do que viveste foi em vão.
Elegeste tuas provas:
os pais, os amores impossíveis,
as perdas, a rejeição, o medo.
A injustiça só existe
quando ainda não se vê o quadro completo.
Quando compreendes isso, algo muda.
A dor deixa de ser inimiga
e começa a revelar sua função.
Como transformar a Dor em Portal de Evolução
-
Pára de fugir.
A dor só se transforma quando é encontrada com presença.
Não a anestesies. Não a negues. -
Escuta o que ela revela.
Senta-te diante da tua dor e pergunta:
“O que vieste me ensinar?”
A dor sempre responde. -
Observa os padrões.
Pessoas diferentes, feridas semelhantes.
Situações distintas, a mesma emoção.
Aí está o fio condutor da tua alma. -
Retira a identidade de vítima.
Enquanto te vês como vítima, o portal permanece fechado.
A responsabilidade consciente é a chave. -
Integra, não combatas.
A dor não pede guerra.
Pede compreensão, integração e maturidade. -
Age a partir da consciência adquirida.
Evolução não é entender — é viver diferente depois do entendimento.
Quando a dor é acolhida,
ela deixa de ferir
e começa a iluminar.
O universo não conspira contra ti.
Conspira a favor da tua lembrança.
A dor é o portal.
A consciência é a travessia.
E do outro lado,
não está alguém novo —
estás tu, finalmente recordado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário